" Não há mágica nas minhas previsões, tento prever tudo com os mínimos detalhes."
O americano Michael Pachter é um cara polêmico, mas muito respeitado. Ele é o analista de mercado mais conhecido dos Estados Unidos e suas observações conseguem até influenciar cotações de empresas de videogames na Bolsa de Valores. Formado em Economia na Universidade da Flórida, com bacharelado em Ciência Política pela Universiade da Califórnia, ele é atualmente analista do mercado de games para a Wedbush Morgan Securities, gigante do ramo de investimentos finaneiros na América do Norte. Pachter é frequentemente citado em todos os sites e revistas dedicados ao mercado de games. Suas posições firmes, algumas vezes polêmicas, são capazes de despertar o amor e o ódio de muita gente com apenas uma frase. Uma vez que é analista de mercado, Pachter é sempre consultado a respeito de algum novo jogo ou de algum console. As opiniões dele desagradam muita gente, porém, segundo ele mesmo nos conta, tudo o que fala e escreve é embasado em pesquisas. Mas, afinal, por que Michael Pachter é tão conhecido no mercado mundial de games? Por que o procuram com frequência? Por que se importam com suas opiniões? A EGWdecidiu encontrar as respostas falando diretamente com a fonte.
EGW: Sabemos que seu trabalho envolve muita pesquisa e estudo, mas muitas pessoas acreditam que tudo que você faz é simplesmente dizer o que pensa do mercado de games. Como afinal é seu trabalho como analista de mercado na Wedbush Morgan?
Michael Pachter: Meu trabalho é ajudar investidores internacionais a tomar decisões sobre as ações que eu cubro. Esses investidores são formados por fundos de cobertura, fundos de pensões e fundos mútuos. Sou um especialista em todos os aspectos da empresa, assim posso prever como serão as vendas de um produto e também os lucros que ele trará para a companhia.
Quantas companhias você está analisando no momento?
Atualmente, estou cobrindo 19 ações, das quais 7 são de editores de videogames, sendo que um deles é a GameStop. Se um investidor gostaria de entender melhor uma dessas empresas, eles falam para eu trazer uma análise detalhada de tudo o que lhes interessa.
Você se acha um cara excêntrico?
Suponho que eu seja polêmico, mas não sou de nenhuma forma excêntrico. Me visto normalmente, me alimento normalmente e tenho uma vida relativamente normal. Somente sou polêmico porque tenho opiniões que desagradam algumas pessoas. Felizmente, acerto o bastante em minhas análises para manter as pessoas solicitando as minhas análises.
Algumas de suas análises parecem não fazer qualquer sentido em um primeiro momento, mas depois de algum tempo elas se tornam realidade. Qual o segredo dessas "previsões" de mercado?
Se eu achasse que elas não fazem sentido, eu não as faria, pois jamais ofereço uma opinião sem nenhuma base para a conclusão. Quase tudo que falo está baseado em páginas e páginas de análises escritas por mim. Não é importante estar certo, mas é muito importante ser cuidadoso. Contanto que eu tenha em que apoiar minha linha de pensamento, fico satisfeito em oferecer uma opinião, mesmo que depois ela se mostre errada.
De fato, algumas de suas previsões foram bem equivocadas.
É claro. Quando eu previ um Wii HD até o final de 2009 e tornou-se claro que não estava vindo, eu mudei para o final de 2010. É óbvio que não vamos ver um Wii HD este ano também. Eu não previ um novo hardware da Nintendo porque eu estava adivinhando, mas sim porque achei que o Kinect da Microsoft e o Move da Sony seriam lançados em algum momento de 2010. Já imaginava que ambos poderiam ser apresentados como uma alternativa para o Wii.
E assim Sony e Microsoft viraram "ameaças" para a Nintendo.
Sim. Seguindo esta linha de pensamento, concluí que a Nintendo veria a Microsoft e a Sony como uma ameaça, portanto, ela certamente se mexeria para ter um videogame mais competitivo. Até agora, a Nintendo parece não ter visto os sistemas concorrentes como uma ameaça, por isso, não apresentou um novo console. Por outro lado, eu disse no início de 2009 que o iPod Touch era uma ameaça para o Nintendo DS e muitos dentro da Nintendo zombaram de mim. Mas, recentemente o presidente da empresa reconheceu que a Apple é a maior ameaça para o Nintendo DS. Mas agora é muito tarde.
"Não há mágica nas minhas previsões, tento prever tudo com os mínimos detalhes". Você tem a rara "habilidade" de irritar de uma só vez os desenvolvedores de jogos e também os jogadores. Como você consegue dormir sabendo que há tantas pessoas odiando você todos os dias?
Eu durmo muito bem, não encaro a raiva deles como algo pessoal. As pessoas são livres para discordar das minhas opiniões, não posso ficar preocupado com o fato de discordarem de mim. Lembre-se que sou um analista de mercado, esse é meu trabalho. Não digo as coisas para ofender os desenvolvedores ou os fãs. Se eu penso que um jogo terá vendas ruins, é meu dever dizer, mas não significa que estarei sempre certo. Não há mágica nas minhas previsões. Eu tento prever o quanto for possível com os mínimos detalhes, na esperança que minhas previsões ajudem investidores a tomarem decisões.
Sua previsão para Red Dead Redemption passou longe...
De fato. Previ que Red Dead Redemption venderia 3 milhões de unidades no máximo, e ele vendeu 9 milhões. Minha previsão ruim deveria manter as ações da editora [Take-Two] em baixa até que o jogo fosse lançado, mas quando se tornasse claro que eu estava errado, as ações subiriam. Se um investidor discordasse da minha previsão, ele poderia ter sido encorajado a comprar as ações da Take-Two antes do lançamento e agora estaria com muito dinheiro no bolso. Mas se ele concordasse com minhas previsões, ele deveria vender suas ações da Take-Two antes do lançamento. Neste caso minhas previsões mostraram-se muito erradas.
Suas frases de efeito o tornaram um dos analistas de games mais influentes do mundo. Com tanto poder em mãos, você nunca se sentiu tentado a "derrubar" um produto propositalmente?
De jeito nenhum. Se eu penso que um game venderá mal, costumo estar com a razão, seja por causa da concorrência, do gênero estar saturado ou mesmo da qualidade do game. Eu nunca diria algo para prejudicar ou mesmo levantar as vendas de um título. É importante para mim continuar com credibilidade, isso é algo que eu jamais arriscaria. As três grandes [Sony, Nintendo e Microsoft] têm um sensor de movimentos, mas cada um com suas peculiaridades.
Qual deles você acha que está no caminho certo?
A Nintendo fez tudo certo. O Move da Sony se assemelha muito com o Wii, mas o PS Eye acrescenta algo a mais para alguns jogos. Kinect é realmente algo diferente, mas nós ainda não vimos jogos suficientes para saber se ele é mesmo revolucionário. Acho que Dance Central será um sucesso fenomenal, mas é necessário muito mais que um jogo para estabelecer o Kinect como o sistema de controle realmente inovador.
Se você fosse comprar uma empresa, qual seria? Sony, Nintendo, Microsoft, Apple?
Isso eu não posso responder, por que isto seria uma opinião profissional de investimento de mercado. Cada uma dessas empresas é líder em alguma área e possuem milhões de razões para investirem nelas. Aqui no Brasil as empresas de jogos parecem interessadas em estabelecer um negócio sólido, mas por causa de problemas que envolvem impostos abusivos, além da forte concorrência da pirataria, os consumidores têm de pagar preços altos para adquirir um console.
Que conselho você daria para que o mercado de games brasileiro possa crescer tanto quanto o mexicano cresceu na última década?
Acho que é importante que o governo local encoraje o desenvolvimento de jogos, uma vez que existem tantas pessoas inteligentes e criativas no Brasil. Altos impostos e a pirataria mantêm as empresas desinteressadas em se expandir no Brasil. Se o governo reduzisse os impostos sobre a indústria de games e tomar ações concretas contra a pirataria, eu acho que vocês veriam os editores de jogos interessados em estabelecer estúdios de desenvolvimento no Brasil. E o mercado cresceria rapidamente.
Como você imagina que serão os videogames da próxima geração?
A tecnologia que levará os videogames às alturas já está aqui com o sistema OnLive. Acho que outros serviços, como Gaikai, tornarão mais difícil para os fabricantes venderem consoles na próxima geração. Ultimamente, penso que veremos muitos jogos em 3D, reconhecimento facial e uma variedade de multimídia e serviços de telecomunicação através de nossas televisões. Acho que a próxima geração será mais evolucionária do que revolucionária.
Matéria publicada na revista EGW - número 108 - dezembro de 2010 Por Luiz Silva.

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